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Trauma Raquimedular

O trauma raquimedular se refere à lesão traumática das estruturas neurológicas encontradas no interior da coluna vertebral (medula espinhal, cone medular ou cauda equina). Assim, esta lesão pode levar a danos neurológicos, temporários ou permanentes, como alterações de sensibilidade e motricidade do tronco e membros.

O trauma raquimedular abrange um grupo extenso e complexo de lesões às estruturas ósseas, vasculares, discoligamentares e neurológicas da coluna vertebral. Ademais, podem ser causados por traumas diretos e indiretos e serem decorrentes de lesões de alto impacto, como um acidente automobilístico, ou de baixa energia, como uma queda em casa.

De acordo com Organização Mundial de Saúde, estima-se que a incidência global do trauma raquimedular seja de 40 a 80 novos casos anuais por milhão de habitantes. Além disso, a lesão medular ocorre em cerca de 15-20% das fraturas vertebrais e aproximadamente 48% dos pacientes irão falecer no local do acidente ou logo após a admissão hospitalar.

As principais causas do trauma raquimedular em nosso meio são os acidentes de trânsito, violência (principalmente, por arma de fogo), quedas de altura e mergulhos em água rasa. Acometem principalmente pacientes do sexo masculino, entre 15 e 40 anos de idade.

Trauma Raquimedular | Dr. Ricardo Teixeira
Figura 1: Estruturas Neurológicas (Medula Espinhal, Cone Medular, Cauda Equina e Raízes nervosas)

Como ocorre o trauma raquimedular?

O trauma raquimedular constitui um evento complexo subdivido em duas etapas principais. Assim, a lesão primária é ocasionada pela transferência direta da energia cinética para a medula espinhal com dano aos neurônios e rompimento dos vasos sanguíneos acarretando hemorragia e necrose.

A lesão secundária ocorre em decorrência de um processo celular complexo em resposta ao trauma inicial culminando, em última análise, com a expansão da zona de lesão neurológica para além do local do trauma. Isquemia reflexa, migração de células inflamatórias, liberação de radicais livres e citocinas inflamatórias, desequilíbrio hidroeletrolítico e peroxidação lipídica são algumas das vias implicados neste evento.

Desse modo, o suporte médico adequado é fundamental para que os danos neurológicos sejam minimizados.

Trauma Raquimedular | Dr. Ricardo Teixeira
Figura 2: Trauma Raquimedular – Lesão Primária e Lesão Secundária

Qual o tratamento do trauma raquimedular?

O atendimento adequado já no local do acidente é de grande importância a fim de se reconhecer as lesões existentes e evitar lesões adicionais. Portanto, a presença de lesão da coluna vertebral deve sempre ser considerada até que o paciente possa ser avaliado com segurança e de forma apropriada.

Os pacientes com maior risco de trauma raquimedular, como os politraumatizados e inconscientes, também são os que estão sob maior risco de lesões adicionais durante o primeiro atendimento e resgate/transporte. Aproximadamente 1/3 das fraturas vertebrais não são suspeitadas na avaliação inicial.

Os pacientes com suspeita de lesão neurológica devem ser transportados com prancha rígida e imobilização cervical por profissionais capacitados. Devem ser solicitados a se manterem deitados e em repouso. Evite mobilizar estes pacientes sem o devido conhecimento e cuidado.

Abordagem inicial do paciente com trauma raquimedular
Figura 3: Abordagem inicial do paciente com trauma raquimedular

No ambiente hospitalar, o paciente é avaliado de forma detalhada pela equipe médica para ser realizado o diagnóstico preciso. Também são iniciadas todas as medidas para manter o paciente clinicamente estável e as estratégias neuroprotetoras.

Os principais exames para o diagnóstico são a radiografia, tomografia e a ressonância magnética da coluna. Eles demonstram o local e a extensão da lesão. Dessa maneira, é possível avaliar o padrão de fraturas, lesões medulares e ligamentares e definir o melhor tratamento.

Fratura da coluna lombar diagnostica pela tomografia computadorizada
Figura 4: Fratura da coluna lombar diagnostica pela tomografia computadorizada

As fraturas graves com compressão das estruturas neurológicas (medula espinhal e cauda equina) e instabilidade devem ser tratadas de forma cirúrgica com descompressão e estabilização (artrodese), quando necessário, em caráter de urgência. Nestes casos, quanto mais rápido for realizada a cirurgia, melhor o prognóstico.

Como é a reabilitação no trauma raquimedular?

Por ser uma lesão grave com limitações importantes em caráter definitivo, a reabilitação é um dos pontos mais importantes de toda a abordagem dos pacientes vítimas de trauma raquimedular. De maneira resumida ela inclui:

  • Fisioterapia
  • Readaptação funcional com uso de órteses
  • Acompanhamento urológico (muitos pacientes apresentam perda do controle urinário e intestinal)
  • Acompanhamento fisiátrico (médico especialista na parte de reabilitação)
  • Controle de contraturas
  • Controle de dor neuropática
  • Especialista em microcirurgia – Possibilidade de cirurgias de transferências musculares permitindo recuperar movimentos
  • Acompanhamento psicológico
  • Especialista em coluna

Mensagens Finais

O tratamento do trauma raquimedular ainda permanece um desafio em razão de seu caráter permanente e elevado impacto social e pessoal. Assim, a prevenção é de fundamental importância na redução de sua incidência. Em razão do elevado número de traumas raquimedulares atualmente no Brasil, políticas públicas pertinentes devem ser encorajadas.

O uso adequado de equipamentos de proteção no trabalho, o uso do cinto de segurança, consciência no trânsito, prevenção de quedas em idosos, evitar mergulhar “de cabeça” em piscinas e rios e controle da violência são algumas das principais ações para se diminuir a ocorrência dos traumas raquimedulares.

A capacitação das equipes de saúde e a correta abordagem inicial, resgate e imobilização destes pacientes é peça fundamental para que se evite o surgimento de lesões neurológicas em pacientes vulneráveis e piora das lesões já estabelecidas.

Além das cirurgias em caráter de urgência, existem diversos estudos clínicos em andamento para se minimizar os danos neurológicos após o trauma raquimedular. Sendo as terapias mais promissoras o uso dos seguimentos medicamentos: riluzole, a minociclina, o magnésio, o fator de crescimento derivado de fibroblasto, o fator estimulador de colônias de granulócitos, o fator de crescimento de hepatócito e a glibenclamida.

Outra área de estudo é a robótica, na qual dispositivos de neuroengenharia seriam capazes de reconhecer as ordens cerebrais que seriam executadas por esta veste robótica (exoesqueleto).

A reabilitação com equipe multidisciplinar e o apoio familiar consistem no principal tratamento para estes pacientes, para que possam adquirir autonomia e serem reintroduzidos na vida social habitual.

O tratamento ideal deve ser individualizado e definido após uma avaliação médica criteriosa.
Consulte um especialista em coluna.

Fonte:
Sociedade Brasileira de Ortopedia e Traumatologia (https://sbot.org.br)
Sociedade Brasileira de Coluna (http://portalsbc.org)
AO SPINE (aospine.aofoundation.org)
Associação Americana de Lesão Medular (https://asia-spinalinjury.org)

FAQ

1. Quais são os tipos de trauma raquimedular?

O trauma raquimedular é dividido em agudo, nas primeiras 48 horas do trauma. Subagudo até 2 semanas pós trauma. Crônico após 2 semanas. A lesão primária consiste na lesão decorrente do próprio trauma e a lesão secundária diz respeito à piora desta lesão por isquemia, radicais livres, inflamação e edema em um segundo momento.

2. Qual o tratamento para o trauma raquimedular?

As principais formas de tratamento para o trauma raquimedular são a cirurgia descompressiva de urgência e posteriormente a reabilitação. A reabilitação consiste basicamente em fisioterapia, readaptação funcional, adequação ao uso de órteses, controle da dor neuropática, contraturas, controle do hábito urinário e intestinal além do acompanhamento psicológico.

3. Quais os sintomas do trauma raquimedular?

Os principais sintomas do trauma raquimedular são perda de sensibilidade e motricidade nos membros. Também são observadas perda do controle urinário e intestinal. A depender do tipo de lesão podem ser observadas contraturas, dores neuropáticas, movimentos involuntários, deformidades e rigidez articular.

4. Quais os exames utilizados para diagnosticar um trauma raquimedular?

O mais importante para se diagnosticar o trauma raquimedular é o exame neurológico e a história clínica. A radiografia, a tomografia e a ressonância magnética da coluna são os exames de imagem que confirmam o diagnóstico.

5. Qual o mecanismo de morte mais comum em um paciente com trauma raquimedular?

O mecanismo de morte no momento do trauma mais comum é o comprometimento das estruturas neurológicas responsáveis pela respiração, sobretudo em lesões cervicais altas. Os pacientes que sobrevivem por mais tempo são acometidos principalmente por problemas como pneumonia, trombose, tromboembolismo e sepse.

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